Pessoas de neblina II

Maio 16, 2009

2009.05.10 - neblina 002A neblina causa alguns acidentes. A visão é o sentido que os humanos acostumaram-se a tomar como o mais importante. Toda a sociedade foi organizada pensando-se na visão. Como a natureza não tem preferências, as pessoas não podem ser compreendidas apenas com o olhar. Elas não foram organizadas para isso. Nem o olhar literal, nem o metafórico.

A tentativa de entender com exatidão uma pessoa é sempre fadada ao fracasso. Qualquer tipo de olhar, entenda-se por ele a captação de sons, de cheiros ou de gostos, é incapaz de chegar ao âmago do raciocínio ou do sentimento alheio. Estamos exatamente isso: alheios. Por mais que tentemos – e isso raramente acontece racionalmente – estamos e estaremos sempre alheios ao que realmente se passa na cabeça de qualquer outro ser. A aproximação e a convivência ajudam nesse processo, mas não resolvem o problema. Qualquer um pode estar dissimulando o tempo todo, só para ficar em um exemplo mais raso, extremamente simplificador, eu sei.

Entender os outros é, de certa forma, uma tentativa de entendermos a nós mesmos. O quente só existe em relação ao frio. Precisamos do entendimento do outro para que possamos entender a nós. É uma tarefa ingrata. A neblina abraça nossa chance, e está por todos os lados.

As pessoas são feitas de muitos elementos que se encaixam e se complementam. Fala-se, de modo grosseiro, em carne e osso. São elementos maiores, que já compreendem muitos outros aspectos. Pois dessa díade eu me arrisco a fazer uma tríade de elementos visíveis, ao mesmo tempo em que dificultam a visão do que realmente importa: as pessoas são feitas de carne, osso e neblina.


Pessoas de neblina

Maio 14, 2009

2009.05.10 - neblina 006Até o instante exatamente anterior, quase sobreposto, ao momento em que agimos, podemos repensar nossa ação futura. Que bom.

Em um lugar em que as pessoas são feitas de neblina, pouco se pode enxergar. Quando se chega mais perto, a visão melhora um pouco, mas nada muito significativo. Pois esse é o máximo que podemos ter, muitas vezes. É com essa visão rala e essa percepção prejudicada que temos que agir ou deixar de agir. Por isso, é uma grande sorte que, até o último instante, possamos sempre repensar. Tudo é moldável, até o momento final. Que bom.


Pensoando

Maio 4, 2009

Pensei e estou aqui. Pensei de novo: não estou mais lá. O pensamento é contínuo, não há como travá-lo. E a cada vez que penso me transporto para onde pensei, me transporto sem querer ou com querer. Penso e já estou. Quando passar as palavras do pensamento para minha mão e em seguida para o papel, já não estarei mais aqui. Então não posso escrever, não alcanço. Nessa insensatez de se transportar na velocidade e na medida exata do pensamento, estou e não estou tão rápido que já não ando, já não paro, já nem penso. Não pensando, também não me movo mais. Estou aqui. Escrevo sem pensar.


É carnaval!

Abril 26, 2009

carnaval_mascaras-copiaÉ a primeira vez que venho a um lugar assim. Os adultos chamam de “baile de carnaval”. Pra mim, parece um salão de festas bem grande, cheio e barulhento. É meio escuro. As poucas luzes passam rápido pelos lugares pra onde olho. E são coloridas. Mas passam tão rápidas e são tão coloridas que não consigo saber de que cores são.

Com essa escuridão toda, parece de noite. Quando entrei aqui, no colo do meu pai, ainda era início da tarde, e só faz dez minutos. Mas as luzes coloridas parecem estrelas, e o resto é só escuro. Mesmo que lá fora ainda tenha sol, aqui dentro é noite, tenho quase certeza.

À minha volta, tem gente dançando por todos os lados, de todos os jeitos. Muitas crianças, uns poucos adultos. A maioria das crianças é menos criança que eu. Quase todos estão com roupas super coloridas, alguns com uns colares esquisitos, alguns fantasiados.

Muitos dos adultos estão fumando, inclusive meu pai. Minha mãe está lá sentada com a minha irmã, enquanto meu pai passeia comigo pelo salão, meio andando, meio dançando. O cheiro de cigarro está todo misturado com os perfumes que os adultos estão usando. Estamos a poucas quadras do mar. Aquele ventinho de areia molhada com água salgada entra pelas poucas janelas desse salão abafado. São tantos cheiros que não sinto nenhum gosto.

São muitos cheiros e são muitos barulhos. Não sobra espaço de silêncio entre uma música e outra. A maioria são marchinhas. Pelo menos foi o que o meu pai me explicou. Músicas legais que já eram moda na época dele. As pessoas cantam alto. Principalmente os adultos. As crianças só pulam, praticamente. É muita confusão, não estou gostando muito. O barulho seria legal se não fosse tanto. Todo mundo fala ao mesmo tempo, meio aos gritos, porque se não não daria pra ninguém se ouvir. É muita confusão.

Às vezes a gente esbarra em alguém. Aí meu pai me segura mais forte. Eu sei que ele não vai me deixar cair, então nem me preocupo. Mas é chato esse empurra-empurra.

Ai! Que dor! De repente! Tipo um beliscão gigante no meu braço! Ai ai ai ai! Meu pai me olhou, agora a dor vai passar. Mas acho que foi ele mesmo quem fez isso. Foi com o cigarro. Encostou no meu braço com o cigarro! Não aguento mais, vou chorar.

Ele me pede muitas desculpas, está me levando até o bar para pedir gelo. Agora, passando o gelo no meu braço, a dor vai aliviando. Doeu, continua doendo, mas acho que vou parar de chorar. Meu pai se assustou mais do que eu. Não quero deixar ele mais assustado ainda. Parei.


A morte do silêncio

Abril 23, 2009

Alguém aí ainda se lembra o que é silêncio? Não fosse o barulho do computador, a essa hora – são quatro horas da manhã enquanto agora escrevo insone – talvez eu conseguisse relembrar. Na verdade, quase tenho uma vaga lembrança, que não estava por aqui, pela minha cabeça. Ela surgiu dia desses, no cinema. Vou contar:

Desenho animado. Pouca gente na sala. No filme, uma invasão de alienígenas fez com que todas as pessoas se escondessem em suas casas. Tomada aérea da cidade. Grande, onipotente, cinza e… vazia. Vazia de gente e vazia de som. Umas 10 poltronas para o lado, uma criança pergunta baixinho:

- Mãe, por que tem silêncio na cidade?

- Porque tá todo mundo com medo – explica a mamãe.

Aí está: o silêncio virou medo. Minto. O silêncio sempre foi medo. Mas agora é só medo. Quantas outras coisas poderia ser o silêncio? Paz, tranquilidade, reflexão, olhar, carinho. Não. Agora o silêncio é medo e ponto.

20090422-som-004Porque temos barulho para todo o lado, porque a mentalidade que escolhemos para o nosso tempo, ou que nos foi colocada à força – é quase um estupro intelectual – é a cultura do barulho, da agitação, da correria, da não-reflexão. Se eu e tu e os meus pais e os teus não lembram direito o que é silêncio, imagine uma criança. Pense em uma criança média. Classe média, mora em um apartamento, passa o dia no computador ou no vídeo game ou vendo televisão. Sai no máximo para ir no cinema com os pais. O cinema é no shopping. Vai na escola também, e convive com crianças cada vez menos controladas, mais barulhentas. É barulho, barulho, barulho.

Nas férias, a criança vai pra praia. Lá o barulho é um pouco menor. Depende, também. A proliferação dos carros com som a todo volume a toda hora é uma praga que talvez possamos vencer jogando agrotóxico dentro dos veículos e sufocando os vermes que os dirigem. Som é bom, música boa é ótimo, mas não a toda hora. Aí chove. E a criança vai para o vídeo game que levou para a praia. Mais barulhos intermitentes e ritmo frenético. O próprio som perde o seu prazer. O próprio som deixa de existir, já que ele não pode mais ser relativo a nada.

Aí a criança cresce e tudo continua fazendo barulho à sua volta. O bar embaixo da sua casa fica com música alta toda a madrugada. Ela já nem liga. Nunca parou para refletir, nunca teve tranquilidade suficiente para isso. Ela não vê que o tumulto é mais uma forma de endurecimento. Ela se acha rebelde, mas é controlada por todos os lados, sua cabeça é moldada pelo barulho e pelas imagens que correm sem parar.

Aí a criança fica adulta, pega seu carro para trabalhar, já está meio surda, a TV já está a todo volume, as obras por todos os lados quebram tudo mais a calma, e por aí vai. Seus avós não gostavam desse caos pós-moderno, mas ficaram em silêncio por medo. Seus pais ficaram em silêncio por comodismo. Ela reapreende que silêncio é medo. Só quem cala são as pessoas. O resto todo faz barulho, e vence.

O silêncio está morrendo e, com ele, a reflexão, a paz, a tranquilidade, o olhar, o carinho. E o pior é que não podemos nem fazer um minuto de silêncio por nenhum deles.


Novo técnico do Grêmio

Abril 22, 2009

Vou me resguardar o direito de não citar a fonte, mas é do alto escalão da diretoria do Grêmio:

O novo técnico do Grêmio é Paulo Autuori. Já está acertado e, assim que estiver livre de seu clube no Catar, desembarca em Porto Alegre.

No início de maio, lembre-se que o Delírio Eterno foi o primeiro veículo do Rio Grande do Sul a confirmar essa informação. São 21h 19min do dia 22 de abril.


Debate

Abril 15, 2009

cartaz_web


Ler

Abril 9, 2009

Do gênio José Saramago, em seu blog

20090410-livro“Isto a que chamam o meu estilo assenta na grande admiração e respeito que tenho pela língua que foi falada em Portugal nos séculos XVI e XVII. Abrimos os Sermões do Padre António Vieira e verificamos que há em tudo o que escreveu uma língua cheia de sabor e de ritmo, como se isso não fosse exterior à língua, mas lhe fosse intrínseco.

Nós não sabemos ao certo como se falava na época, mas sabemos como se escrevia. A língua então era um fluxo ininterrupto. Admitindo que possamos compará-la a um rio, sentimos que é como uma grande massa de água que desliza com peso, com brilho, com ritmo, mesmo que, por vezes, o seu curso seja interrompido por cataratas.

Chegam dias de férias, uma boa ocasião para entrar nesta água, nesta língua escrita pelo Padre Vieira. Não aconselho nada a ninguém, mas digo que vou mergulhar na melhor prosa e vou desaparecer estes dias. Alguém quer acompanhar-me?”


Nós nos tripulamos

Abril 2, 2009

barcoAmada, deitamos

no giro do barco

e as águas singramos

vela e corpo em arco.

 

O universo ao largo

se entrepõe. As margens

e o rio, somos nós.

Quem nos leva à foz?

 

Amada, rodamos

no ágio do barco;

somos onde vamos,

nós nos tripulamos.

 

Carlos Nejar, “Arras”, em “Casa dos Arreios”


A Hora do Planeta

Abril 1, 2009

20090328-apagar-das-luzes-15No último sábado – sei que o post parece atrasado, mas este deveria ser um assunto de todos os dias, e, também, quem disse que se deve falar sobre as coisas logo que elas acontecem? -, dizia eu que no sábado passado aconteceu a tal Hora do Planeta, espécie de mega-evento do ambientalismo pop.

Participei, sim, mas isso não quer dizer que não tenha minhas críticas à ideia. Acho útil, a princípio, mas me parece muito pouco. Será que isso realmente conscientiza alguém de alguma coisa? Acredito que não.

Pra começar, no caso do Brasil, mesmo quem apagou as luzes às 20:30 dificilmente as manteve apagada até 21:30, já que às 21h tinha novela. Isso parece engraçadinho, mas demonstra uma falsa consciência e uma necessidade absurda de determinadas coisas, necessidades tão grandes que suplantam inclusive a necessidade ecológica, mesmo que de forma simbólica – o simbolismo também é real.

Depois, não adianta absolutamente nada as pessoas apagarem as luzes por meia-hora – ou uma hora, que seja – e depois ligarem todas ao mesmo tempo, andarem de elevador a toda hora, manterem todos os aparelhos eletrônicos ligados, não conseguirem sair de casa sem carro, etc etc etc etc etc.

Ao mesmo tempo, que prefeitura mais hipócrita – no caso, falo de Porto Alegre, mas isso aplica-se a muitas outras no Brasil, quase todas – que apaga as luzes em monumentos e praças na tal Hora do Planeta e luta com unhas e dentes para aprovar projetos COMPROVADAMENTE prejudicias ao meio-ambiente como o Pontal do Estaleiro? Prefeituras que não têm qualquer projeto seriamente preocupado com o meio-ambiente apagaram as luzes por uma hora. Vão se catar!

A hipocrisia das prefeituras é a mesma da sociedade, em especial da classe média, que, em uma atitude classicamente classe média, limpa sua consciência em uma hora para, mais leve, continuar com sua vidinha imbecil e alienada. A consciência – inclusive a ambiental – se faz e se demonstra dia a dia.


Um post de silêncio

Março 24, 2009

A todos os blogueiros que me acompanham, peço um post de silêncio pela morte do jornalismo.

www.pontodevista.jor/blog

censura


Distâncias

Março 22, 2009

Uma questão:

Onde eu baixo um Win Zip de distâncias?


Do fogo, das cinzas

Março 15, 2009

20090315-fogo-0051Queimar é um ato de exorcismo. O que é queimado não volta a existir. Como na vida, no fogo não existe o voltar atrás. Como na vida, no fogo há coisas que queimam com mais dificuldade. Alguns materiais queimam devagar, mas, como as coisas difíceis de serem apagadas, também acabam queimando.

Como na vida, no fogo também podemos acabar queimando a nós mesmos. Vale o risco. O exorcismo não deixa pedra sobre pedra, bilhete sobre bilhete, imagem sobre imagem. Mesmo que não queime o próprio demônio, queimar a lembrança dele é quase transformá-lo em pouco mais que cinzas.

Queime. Queimem. Queimo. Queimemos todos.


Para o mesmo lado

Março 13, 2009

20090313-havaianas-13Tem aquela história de que as desgraças costumam ter seu lado risível, e vice-versa. Pois as leis naturais também são assim. Por exemplo: esse negócio de dois corpos não poderem, de jeito nenhum, ocupar o mesmo lugar no espaço. Puta troço chato, né. Meio ditatorial, sei lá. Não fosse isso, não teríamos acidentes de carro, evitaríamos várias tragédias. Não estou sugerindo nem que as coisas passem por dentro umas das outras, tipo nos filmes de fantasma. Não, que aí ia ser mais chato ainda. Mas que a gente pudesse escolher na hora, talvez. Não sei, não sei fazer leis, mas ainda posso discordar delas.

Estou dizendo tudo isso porque essa história dos dois corpos que não podem ocupar o mesmo lugar no espaço causa situações dignas de um estudo mais apurado da natureza humana. Aquelas situações em que a gente lembra como somos uns bobalhões por nos importarmos com problemas pequenos – todos os problemas são pequenos – e de como é fácil sorrir.

Aconteceu ontem comigo, mas acontece todos os dias com alguém, acontece com todos os alguéns de dias em dias. Ia eu andante pela calçada, desviando dos buracos que as últimas duzentas prefeituras deixaram por aí, saltando pra cá e pra lá, agradecendo por não usar bengala nem precisar de cadeira de rodas ou de salto alto.

Vou fazer um parêntese aqui para um pequeno manifesto: pra que salto alto? Mulheres, respondam, por quê? Ponha um ponto de exclamação aí junto nessa fala, não ponho eu para que tu o imagines com mais força do que o veria. Em primeiro lugar, fica uma coisa tão artificial, tão bestinha… A naturalidade é tão mais bonita! A mulher feia é a que precisa de saltos. Engano-me. Nem ela deveria usá-los, na verdade, apenas ressalta a feiúra. Mas falo agora especialmente às mulheres bonitas. A ti. A beleza não precisa de ornamentos. A mulher realmente bela maquia sua beleza quando esconde-se atrás de maquiagens ou saltos. Pense nisso.

Mas voltemos ao ponto. Vinha eu por uma das calçadas-queijo suíço de Porto Alegre. Do outro lado, em minha direção, vinha um sujeito comum, com aquela cara cada vez mais comum de preocupado-zonzo-cansado-apressado. Vinha eu com uma cara que era quase um espelho da dele. Vínhamos os dois mais ou menos na mesma linha da calçada, um bem de frente para o outro. Alguém teria que desviar. Caso contrário, bateríamos uma cara preocupada-zonza-cansada-apressada na outra, um corpo tudo-isso no outro, talvez tombássemos ambos para trás.

Momento da união inexpugnável pelo bem comum. Mas para que lado desviar? E se os dois fossem para o mesmo lado? Esse é um daqueles momentos cruciais da vida. Um daqueles momentos de dúvida existencial intensa, momento em que o pensamento corre rápido por cada canto da mente, perguntando desesperado a todos os sentidos o que deve fazer.

Fomos os dois para o mesmo lado. Você já passou por isso, tenho certeza. Aí fica aquela sensação constrangedora, fica aquele constrangimento pairando sobre as cabeças e sob os pés, sob as cabeças e sobre os pés. É a tragédia de dois corpos não poderem ocupar o mesmo lugar no espaço.

Mas aí começa aquele risinho interno que vai se externando em um meio sorriso de olhos baixos – o sorriso e o sorridente. Enfim, e pelo menos isso é o que deveria acontecer sempre, um dos envolvidos olha para o outro, os dois riem juntos e, compartilhando esse deboche da natureza humana e da tal lei, seguem seus caminhos, talvez um pouco mais leves, talvez um pouco mais unidos na doçura da tragédia, talvez um pouco mais humanos.


Das forças e fraquezas, das tuas e das minhas

Março 12, 2009

Como eu conheço as tuas fraquezas.

E como eu já não conheço qualquer força tua.

E como eu conheço as minhas fraquezas.

As minhas forças eu nem sei se conheço ou não.


Abaixo a ditabranda!

Março 7, 2009

ato1


Faixa de esperança

Março 5, 2009

20090305-lixoO barulho esmagado contra o rosto me deixa cego. A cada passo por cada rua da cidade, tropeço em dores minhas e dos outros. Papéis de picolé, de bala, rótulos de cerveja espreguiçam-se nas calçadas, fugidos dos carros que passam costurando uns aos outros em uma dança terrível de pressa e fumaça e motores e buzinas. O silêncio não existe, já existiu e já morreu atropelado ou de fome.

As grades em quase todos os prédios encurtam as calçadas, as pessoas esbarram e olham feio umas para as outras, não param para brigar porque não têm tempo, têm que correr, saem praguejando contra o mal-educado que não olha por onde anda, que caminha de cabeça baixa, procurando algo na calçada de pedra fervente, procurando não tropeçar em quem dorme embaixo das poucas marquises que sobraram sem grades. Dormem muitos em cada marquise, muitos em cada colchão de papelão, um travesseiro de pedra, outro de jornal, outro de garrafa pet.

Um homem-lixo dorme sujando a calçada, cabeça apoiada em um saco de lixo cheio de lixo, dorme em frente a uma loja de roupas de grife. Uma mulher baixinha, meio atarracada, observa a vitrine, a vitrine é mais baixa que ela, então olha para baixo, mas não enxerga o homem logo ao lado, travesseiro preto de plástico. Não vai comprar nada hoje, está tudo muito caro, o salário é que baixa, então vai embora e percebe o homem-lixo quando tropeça em sua cabeça. Não pede desculpas (por que pediria?), segue seu caminho, tem pressa, não existe silêncio, não existe leveza, não existem redes onde deitar e pensar na vida tomando uma limonada gelada.

Dois carros batem, dois homens brigam, um policial corre, três homens brigam, um de farda, de cassetete, de distintivo. É esse o que menos apanha, como sempre, mas também apanha, como sempre. Vou comer um pastel na esquina, a dona da pastelaria está mal-humorada. Serve o pastel de qualquer jeito, não sorri, não diz bom-dia, boa tarde ou boa noite, reclama que dificultei o troco.

Sola de sapato perdida pela rua, uma mulher sem teto louca – tão louca quanto todos nós, ou um tanto menos – grita com quem passa, grita cuspindo um pouco, todos têm medo, então ela grita mais, ninguém a ouve, nem vai ouvir, então ela grita mais e segue sem adiantar. É tanto barulho que ninguém vê mais nada, é tanto cartaz, outdoor, placa, carro, fumaça, que ninguém ouve mais nada.

Cartaz no bueiro pede a saída da governadora, rádios gritam pedindo a saída do técnico do Grêmio, não dá pra passar dentro do parque a essa hora, muito assalto, muita bolsa, muita cama de ferro pelos cantos, muita putaria entre as árvores escuras, muita arma por todo o lado. Não dá pra andar no parque em hora nenhuma sem pisar no lixo das pessoas e nas pessoas-de-lixo.

Marteladas dentro da minha cabeça e fora dela constroem prédios cada vez mais altos para me deixar respirar cada vez menos, para ver cada vez mais fumaça e menos sol, progresso do regresso, regresso do progresso.

Foi então que eu vi. Juro que vi! Acredite! Um motorista freia o carro para uma velhinha de bengala na mão atravessar a rua na faixa de segurança. Ela sorri um sorriso jovem. Não acena, não fala, não move a cabeça. Apenas atravessa a rua e sorri para o motorista. Ele sorri de volta. Uma garota do outro lado da rua vê tudo e sorri. Observando a cena, sorrio também. Talvez alguém tenha me olhado bem nesse momento, e talvez também tenha sorrido. E assim por diante.

 

Esperança.


Direto da faxina

Março 4, 2009

Faxinas às vezes cospem na gente objetos que não sabemos como foram parar ali. Como um monstro do armário ou um vampiro atrás da cortina, aparecem brincos, colares, sei lá mais o quê. De alguma dimensão que ainda não podemos compreender – talvez a mesma para onde vão os guarda-chuvas supostamente esquecidos –, esses pedaços de imaginação desembarcam em nossos quartos ou salas. Ou tentam me convencer de minha loucura – da qual já estou perfeitamente convencido – ou seu objetivo é me aguçar ainda mais minha insanidade.
Pois na minha faxina de ontem me apareceu uma pequena pérola verde, bem pequena mesmo, com um furo no meio. Talvez um pedaço de brinco, talvez um pedaço de colar, talvez um pedaço de saudade de alguém que nem sei.
De que orelha mordida ou de que pescoço roído caiu esse pequeno verde delicado? Foi arrancado com dedos desatinados ou dentes desbaratados em desespero doido doído ou demente?
Agora entre os meus dedos algum pedaço de alguma ela, um leve sorriso sorri divertido em meus lábios, talvez culpados com cara de inocente no caso da pérola verde com um furinho no meio. O pedaço de brinco ou colar agora se esparrama cansado aqui ao lado do computador, calada. Não denuncia sua dona, não chora sua ausência, está muito bem aqui sem ela, seja lá quem ela for. Sorri de canto e me pisca um olho numa cumplicidade de quem também ficou por aqui, de canto, meio esquecida, meio presente, mesmo na ausência.

Lixo.


E se estás triste?

Março 2, 2009

Se hoje me perguntares o que fazer quando estás triste, responderei melhor do que ontem, quando respondi melhor do que antes.
Vai, pergunta, quero tentar falar, quero tentar te ajudar e me ajudar, quero tentar responder:
Pra começar, não faça nada além do fazer mais essencial: o pensar. Pense em tudo ao mesmo tempo e em nada em tempo nenhum.
Pense tudo embaralhado, um turbilhão de pensares que causará um turbilhão de sentires. Sintas tudo e nada enquanto tua cabeça gira, roda. Pense mal de ti e dos outros. Pense que és fraca, tola e má, exagerada até. Pense que os outros são piores. Eles são, garanto. Devagar, as ideias começarão a tomar seus lugares, o caos é, por natureza, uma forma de organização. Sabes o que pensas. Apague, então, as convenções, as ideias pré-estabelecidas, o que já aconteceu. Apague, apenas por poucos instantes, os momentos bons e os momentos ruins. Lembranças felizes trarão a pior inveja, a inveja de alguém que não pode ser
igualado, a inveja do passado. Lembranças tristes trarão mais tristeza, o que também não pode ajudar. Coloque-as de lado. Já não servem mais. Não agora. Servirão depois, talvez, muito depois, quando já puderes rir sinceramente disso tudo.
Renove a cabeça, não se apegue a absolutamente nenhuma ideia, conceito ou palavra, nem a essas que agora lês. Não se apegue a sentimentos antigos, a vivências antigas, só causarão mais dor, mesmo que não percebas isso agora.
Esqueças o que tens de bom. Nada do que tens vai resolver. Esqueça também o que tens de ruim, limpe a cabeça. Não pense em mais nada. Nada do que pensares trará soluções. Então sinta. Sinta o futuro. Sinta, inclusive, teu próprio pensamento no futuro. Verás como estás certa e errada em achar que serás assim semre. Nesse futuro perceberás como essa ideia esteve certa, mas não está mais.
Sinta o que vais fazer. Não a partir de agora, não trace caminhos. O que vais fazer amanhã? Com quem vais estar? Como será teu olhar? Por onde vais andar carregando tua doçura? Quem brindarás com tua beleza completa e sem fim, com teus sorrisos ou tuas lágrimas, ou os dois juntos, e daí? Brinda a ti com isso tudo! Olha-te ao espelho. Mira teus olhos até notares e entenderes a profundidade escondida atrás deles, e notares e entenderes a profundidade que eles próprios contêm e emanam a quem observam lívidos. As lágrimas que escorrem lentas por teu rosto delicado rabiscam frases de uma beleza tua que (quase) ninguém pode ver. Olha bem essas frases, absorve-as com carinho, carinho por um pedaço de ti que fica em silêncio, sussurrando ao teu ouvido a suavidade que estás esquecendo que carregas.
Se tudo isso falhar, imagina. Imagina que estás rodando um bambolê em tua cintura-imã-de-carinhos. Imaginas que comes um brigadeiro feito pela avó mais querida, que corres fugindo de quem é a vez de pegar, imagina que te escondes ansiosa por ser descoberta e então correr. Que pulas corda, que olhas bem fundo nos olhos de uma criança, que tomas sorvete e um pingo escorre despercebido pelo lado da tua boca enquanto tuas amigas riem de ti e tu ri junto da tua distração, da tua forma de ser criança e pular e rolar na areia e jogar vôlei suada e lutar judô derrubada no chão e brincar de bonecas e ver desenho animado numa manhã de segunda-feira.
Te imagina sonhando com danças inocentes, com sorrisos ainda mais inocentes, com risadas idiotas, com a Sessão da Tarde comendo pipoca. Com o passeio no parque, com o teatro infantil. Lembra da bebedeira com as amigas, da piscina, do mar, das ondas que te gelam, dos teus óculos escuros criminosos que escondem teus olhos e, mais, teu olhar.
Imagina que beijo de leve os teus cílios, que desço a mão devagar por tuas costas, que afago tua testa enquanto relaxas na escuridão absoluta do silêncio. Que passo meus dedos nos teus em uma dança de mãos, um bolero infindável de calma e paz, que começas a rir louca-desvairada de nada, que pegas carona apertada de repente, que dormes e sonhas de novo com tudo.
Se tudo isso falhar, deita no meu colo que te faço cafuné recitando silêncios ou cantigas de ninar. Então teu sorriso será completo e tua tristeza adormecerá num piscar.


Março

Março 2, 2009

São as águas de março fechando o verão.