O barulho esmagado contra o rosto me deixa cego. A cada passo por cada rua da cidade, tropeço em dores minhas e dos outros. Papéis de picolé, de bala, rótulos de cerveja espreguiçam-se nas calçadas, fugidos dos carros que passam costurando uns aos outros em uma dança terrível de pressa e fumaça e motores e buzinas. O silêncio não existe, já existiu e já morreu atropelado ou de fome.
As grades em quase todos os prédios encurtam as calçadas, as pessoas esbarram e olham feio umas para as outras, não param para brigar porque não têm tempo, têm que correr, saem praguejando contra o mal-educado que não olha por onde anda, que caminha de cabeça baixa, procurando algo na calçada de pedra fervente, procurando não tropeçar em quem dorme embaixo das poucas marquises que sobraram sem grades. Dormem muitos em cada marquise, muitos em cada colchão de papelão, um travesseiro de pedra, outro de jornal, outro de garrafa pet.
Um homem-lixo dorme sujando a calçada, cabeça apoiada em um saco de lixo cheio de lixo, dorme em frente a uma loja de roupas de grife. Uma mulher baixinha, meio atarracada, observa a vitrine, a vitrine é mais baixa que ela, então olha para baixo, mas não enxerga o homem logo ao lado, travesseiro preto de plástico. Não vai comprar nada hoje, está tudo muito caro, o salário é que baixa, então vai embora e percebe o homem-lixo quando tropeça em sua cabeça. Não pede desculpas (por que pediria?), segue seu caminho, tem pressa, não existe silêncio, não existe leveza, não existem redes onde deitar e pensar na vida tomando uma limonada gelada.
Dois carros batem, dois homens brigam, um policial corre, três homens brigam, um de farda, de cassetete, de distintivo. É esse o que menos apanha, como sempre, mas também apanha, como sempre. Vou comer um pastel na esquina, a dona da pastelaria está mal-humorada. Serve o pastel de qualquer jeito, não sorri, não diz bom-dia, boa tarde ou boa noite, reclama que dificultei o troco.
Sola de sapato perdida pela rua, uma mulher sem teto louca – tão louca quanto todos nós, ou um tanto menos – grita com quem passa, grita cuspindo um pouco, todos têm medo, então ela grita mais, ninguém a ouve, nem vai ouvir, então ela grita mais e segue sem adiantar. É tanto barulho que ninguém vê mais nada, é tanto cartaz, outdoor, placa, carro, fumaça, que ninguém ouve mais nada.
Cartaz no bueiro pede a saída da governadora, rádios gritam pedindo a saída do técnico do Grêmio, não dá pra passar dentro do parque a essa hora, muito assalto, muita bolsa, muita cama de ferro pelos cantos, muita putaria entre as árvores escuras, muita arma por todo o lado. Não dá pra andar no parque em hora nenhuma sem pisar no lixo das pessoas e nas pessoas-de-lixo.
Marteladas dentro da minha cabeça e fora dela constroem prédios cada vez mais altos para me deixar respirar cada vez menos, para ver cada vez mais fumaça e menos sol, progresso do regresso, regresso do progresso.
Foi então que eu vi. Juro que vi! Acredite! Um motorista freia o carro para uma velhinha de bengala na mão atravessar a rua na faixa de segurança. Ela sorri um sorriso jovem. Não acena, não fala, não move a cabeça. Apenas atravessa a rua e sorri para o motorista. Ele sorri de volta. Uma garota do outro lado da rua vê tudo e sorri. Observando a cena, sorrio também. Talvez alguém tenha me olhado bem nesse momento, e talvez também tenha sorrido. E assim por diante.
Esperança.